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quarta-feira, 23 de fevereiro de 2011

Biblioteca


És um tesouro, possues um tesouro
És um doce irresistível para as crianças
E ainda não experimentado por outras
És o desfraldar de segredos e anseios para o jovem, tira-dúvidas e bagagem inesgotável de saber para o adulto
Deverias estar permanentemente aberta, sem paredes e sem chaves, acessível a quem quisesse
Receptiva e orgulhosa por matar a fome dos que te procuram precisando de ti
Alegre, bela e aconchegante recebendo a todos de braços abertos
Devias existir em todo lugar, qualquer lugar ao nosso alcance.

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A poesia acima, fiz quando trabalhava como professora numa escola e como precisava da biblioteca para mim e para meus alunos, ficava inconformada que a mesma não estivesse  aberta antes ou depois do horário para que eu pudesse pesquisar ou pegar livros.

Compreendia, mas não aceitava o rigor no cuidado e portas trancadas, então quando conseguia a chave eu pegava os livros e depois contava para a bibliotecária. Ela fazia um escândalo porque não podia pegar livros sem a presença e consentimento dela. Eu era a "professora que roubava livros" bem antes do lançamentto do "A menina que roubava livros" 

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Posso dizer que na minha vida toda sempre gostei de livros e leituras.
Houve um tempo em que sonhava ter uma banca de revistas para ficar lendo infinitamente.

Meu primeiro livro que li em casa foi uma bíblia que ganhamos de um parente. Uma passagem que não esqueço pela gravura: irmãos são jogados numa fornalha. Transcrevo abaixo: 

Sadraque, Mesaque e Abednego na fornalha: Dn 3:24-27

De repente, Nabucodonosor se levantou e perguntou, muito espantado, aos seus conselheiros: Não foram três os homens que amarramos e jogamos na fornalha? Sim, senhor! responderam eles. Como é, então, que estou vendo quatro homens andando soltos na fornalha? perguntou o rei. Eles estão passeando lá dentro, sem sofrerem nada. E o quarto homem parece um anjo” (Dn 3:24-27).

Os únicos livros que tínhamos acesso eram os da escola. Éramos em sete irmãos, então eu lia os meus e os deles. Minha irmã estudou num colégio de freiras e lá ela tinha o francês e o inglês. Atenta a tudo eu conseguia aprender algumas palavras também.
O "je t´aime mon amour"  e o "I love my life because my life is you" eram os hits naquele tempo.
Assim como essas duas línguas, tinha também a italiana e  na   minha cidade onde a maioria eram descendentes, a influência das músicas era  muito marcante, então o "dio come tiamo" também fazia parte do nosso vocabulário.
A língua portuguesa era mais importante e necessária e as línguas estrangeiras caminhavam lado a lado, mas como muitos ainda hoje pensam, não foi além do "the books on the table".

E os livros de historinha infantil! que beleza, como eu gostava de lê-los. Tinha também em disco de vinil , mas que dependia da turma ouvir as histórias: a sala que não faltasse nenhum um aluno, lá ia a professora com a vitrola e um disco, cada vez era uma história diferente. Odiávamos, ou era só eu,  quando um colega faltava. Às vezes era a sala do lado que estava sendo presenteada, então ficávamos em silêncio para com muita dificuldade ouvir também a história.

Havia uma rádio numa cidade próxima que tinha na programação historinhas infantis e eu não perdia um dia,  era um tempo sem televisão e dormíamos cedo, então ouvia as historinhas meio caindo de sono.




Lembro que naquele tempo se recebia muito em casa os vendedores de porta em porta e os meus pais compraram um dicionário enorme no tamanho e de peso e também uma enciclopédia ilustrada.

 A enciclopédia tinha assuntos variados e lembro de alguns:  a divina comédia,  biografias de grandes homens e seus feitos. Como sofri quando li sobre vida de Castro Alves, grande poeta que se feriu com um tiro  acidental de espingarda no pé, o romance de O conde de monte cristo entre tantos outros ...

O tempo passou e já adolescente conheci a fotonovela, revistas como tem hoje onde sempre vinha uma história em fotos para ler, ah que maravilha, puro romance. Minha mãe, rigorosíssima com tudo o que fazíamos as tais revistas não escaparam de seu crivo, como comprávamos escondido dela ou emprestávamos de alguém tão rebeldes quanto nós, começou a rasgar as benditas, para ela o conteúdo era impróprio. E era mesmo porque fazia-nos viajar, sonhar e isso era terminantemente proibido.


 ***
 

Mudamos de cidade e eu descobri ainda na adolescência que podia "morar" na bibiloteca da escola ou na pública para ler o que quisesse.

Como quem experimenta a melhor comida ou algo que fatalmente lhe deixe  extasiado,  estar numa biblioteca era o oásis.

O tesouro da juventude foi literalmente, achar um tesouro! tinha tudo! amava e ainda amo poesias, puro deleite: desde o livro em si, enorme, verde, cheiroso, folhas lisas e brilhantes, cheinho de poesias.. a internet dos anos 1950, 60, 70...!!!



Assuntos abordados por temas:

Livro da Terra
Livro da Nossa Vida
Livro de Animais e Plantas
Livro do Novo Mundo
Livro do Velho Mundo
Livro das Belas Artes
Livros Famosos
Livro da Poesia
Livro dos Contos
Homens e Mulheres Célebres
Livro das Belas Ações
Coisas que Devemos Saber
Livro dos Porquês
Coisas que Podemos Fazer
Lições Atraentes

Tendo muito o que fazer na biblioteca eu emprestava a mim mesma os livros e os levava para casa e assim me sentia como em "A felicidade clandestina" de Clarice Lispector.

Criava as mais falsas dificuldades para aquela coisa clandestina que era a felicidade. A felicidade sempre iria ser clandestina para mim. Parece que eu já pressentia. Como demorei! Eu vivia no ar... Havia orgulho e pudor em mim. Eu era uma rainha delicada. Às vezes sentava-me na rede, balançando-me com o livro aberto no colo, sem tocá-lo, em êxtase puríssimo. Não era mais uma menina com um livro: era uma mulher com o seu amante.


Barrinha MaynaBaby

3 comentários:

Paulo Tamburro disse...

OLÁ SHAN-TINHA

A PRÓXIMA CRÔNICA LÁ NO HUMOR EM TEXTO, SERÁ SOBRE O QUE AS MULHERES PENSAM DAQUILO QUE SERIA MELHOR DO QUE UM HOMEM.

AGUARDE!(RS).

OBRIGADO POR TUDO!

UM ABRAÇÃO CARIOCA.

Georgia disse...

Eu tb adoro ler e amo livros. Esse foi um dos grandes problemas quando vim para cá: Os livros na minha lingua. Trouxe uma mala cheia e pedia sempre a minha família que o melhor presente seria sempre me enviar um livro.

Eu tenho um outro blog junto a uma outra amiga só de dicas de livro.

http://www.oqueelasestaolendo.com/

Passe por lá. Acho que vc vai gostar dessa biblioteca.

Já há uns 30 anos meus livros viajam. A maioria que li, passo-o adiante. Poucos ficam na biblioteca aqui em casa. Afinal, livros existem para serem lidos. Os de pesquisa ficam um tempo, mas hoje com o mundo virtual, fica melhor a pesquisa fresquinha. Tenho o maior orgulho de ter meus livros viajando pelo mundo. Sempre que estou fazendo férias levo um que já tenha lido para passá-lo adiante. Já fiz isso na Espanha, Portugal, Tunisia, Egito, pelo mundo a fora deixei com alguém que encontrei e que falava português, mas sempre com uma condicao: Que ela deveria depois passá-lo adiante. Quem sabe um dia desses, um desses meus livros viajante vai voltar prá mim ou chegar ai até você, rs.

Um abracos e li sim o teu outro texto

Anônimo disse...

Oi Shan Tinha,
É sempre muito bom encontrar um recadinho seu em meu blog e agora entendi pq nos identificamos tanto: gostamos de livros e leituras. Eu tb adorava ler fotonovelas e minha mãe tb brigava muito por causa disto. Passei a colocá-las dentro do livro de estudo para disfarçar e ler em paz. kkkk Tempos bons aqueles. bjs carinhosos da Lou